Deus é o nosso refúgio e a nossa força; é a nossa ajuda nos momentos de angústia. Por isso, não temos medo, mesmo que a terra se ponha a tremer, mesmo que as montanhas se afundem no mar; mesmo que as águas rujam furiosas e os montes tremam com o seu embate. (Salmo 45)

sábado, 17 de outubro de 2026

SACRUM OFFICIUM

 

SACRUM OFFICIUM

A verdade bíblica de que “O justo viverá pela fé” criou uma escola que até hoje manda no país. Pode ver. As pessoas “corretas” se escondem da política. Os grandes negócios são sempre entendidos como espúrios e corruptos. Pelo menos no âmbito acadêmico. Essa galera aprendeu bonitinho com os católicos que lugar de adoração é na Igreja, que, bem entendida, é subserviente ao poder da Coroa. A novidade vem do outro lado do mundo. O japonês que vende uma planta que para ele é sagrada. O budismo é rés-do-chão. Pé em Deus e fé na tábua.

Vejo que a lição a ser aprendida no Brasil atual é que é possível ser comerciante seguindo os mais sagrados princípios da ética e também da religião. Justiça, acolhimento, caridade. Quando falamos nisso já imaginamos um tribunal, um CAPS ou uma igreja. Os negócios sociais existem, contradizendo toda má-fama dos liberalões. É possível entrar no jogo do mercado tendo em vista satisfazer necessidades. Levar o melhor. Não a melhor. Para longe de qualquer esforço propagandístico. Que, astutamente, sempre diz fazer isso.

O comércio sacralizado é o próximo passo que o capital deve dar. Com as três dimensões da ecologia ilustradas por Guattari. Social, ambiental e mental. Russell já disse que raramente alguém que pensa em dinheiro apenas, o conseguirá. Pelo menos no mundo livre, as pessoas que angariaram grandes fortunas estavam comprometidas com o bem-estar social, com a solução de problemas, com encarnar a lei universal de Newton, de que os corpos tendem ao repouso. A preguiça é um fator heurístico. O valor da preguiça só é bem compreendido a partir da idéia de “ócio criativo”, como vemos em DeMasi. Ler, fotografar, escrever, desenhar, bordar, esculpir, tocar instrumentos, cuidar do jardim. Tudo isso é coisa de gente preguiçosa. Talvez os pais da Igreja vivessem outro contexto. Preguiça para eles devia significar deixar de colher quando é época de colher. Mas hoje temos tratores trabalhando por nós. Podemos deixar a tarefa fatigante para nos humanizar. Isto é, conhecer o mundo e desenvolver nossas aptidões.

A moral de que só o funcionário público, outrora o meirinho, o sacerdote, agora professor, e toda a casta que se dobra a eles pode fazer o bem precisa ser posta em cheque. O padeiro, o sapateiro, o frentista, o uber, o cobrador de ônibus, a moça que vende trufas, todos eles exercem SACRUM OFFICIUM, quando me oferecem uma janela para um mundo externo onde posso me realizar enquanto vivente.

Proposta que me ocorre? “Comércio amigo do povo”. Os atendidos pelos programas sociais, comprovadamente carentes, teriam à sua disposição uma carta completa de serviços com tarifas especiais, em cuja rede os estabelecimentos poderiam também participar dos subsídios fornecidos pelo Estado. Na prática: o cidadão tem 2 reais. O restaurante cobra 15 pelo prato. Com o cartão “Amigo do comércio”, o Estado enviaria ao comércio, por exemplo, 3 reais, equalizando oferta e procura, evitando desperdício, falência, carência e fome. Ao mesmo tempo, evita-se o gargalo no “Bom prato”. É a soma 100 do jogo. Estado participa, tem seu louro. Cidadão é atendido, tem seus direitos. Comércio viceja, fica amigo do povo.

Lucas Furió passeia mais pela poesia e pela caricatura, mas se arrisca a palpitar sobre o que só conhece na prática: engessamento do Estado, fome, situação de pauperização e a tarefa homérica de tocar um negócio.

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